A seguir, texto publicado no site da revista TRIP por Ronaldo Lemos sobre quando é preciso,simplesmente, desconectar-se.

As demandas virtuais são ilimitadas e nossa capacidade de atendê-las é meramente humana

Já vou começar dizendo que sou otimista com relação aos avanços da tecnologia nos últimos anos. Acho que a internet está apenas começando a mostrar seu potencial para promover maior transparência pública, disseminar o conhecimento e transformar para melhor a educação. Isso para ficar só em alguns exemplos. Claro que com relação a outros assuntos sou pessimista. Um deles é o bate-cabeças do direito autoral, que parece que não vai melhorar tão cedo.

Mas o tema deste artigo é outro. Como diz o amigo Sergio Cohn, editor do livro CulturaDigital.br, um dos bens fundamentais do século 21 será a desconexão. Não preciso repetir o que todo mundo já sabe. Cada vez mais dependemos da rede em dimensões fundamentais da vida. Não só para trabalhar, mas também para se relacionar com outras pessoas, namorar e se divertir. O pesquisador americano Julian Dibbell tem uma história interessante para ilustrar isso. Na China, existem empresas especializadas em produzir e vender “objetos virtuais”. Os funcionários ficam o dia todo jogando videogames para produzir itens que incluem poderes, armas e magias, tudo para ser vendido a outros jogadores. A jornada de trabalho chega a 16 horas. O mais surpreendente é que, assim que o trabalho termina, os funcionários voltam aos mesmos games que passaram o dia todo jogando. Mesmo na hora de “folga”, a diversão é continuar dentro daquele mundo virtual, só que desta vez por “diversão”.

Estou sendo ignorado?
Isso demonstra que há problemas ainda não resolvidos no universo digital. O principal deles é a capacidade de criar camadas em cima do nosso mundo “real”. Só que essas camadas virtuais podem ser ilimitadas e geram demandas e necessidades totalmente reais. E a nossa capacidade de lidar com essas demandas é limitada. Cada vez que ingressamos em um novo universo virtual, seja ele o Facebook, o Twitter, o MSN ou a mera abertura de mais uma conta de e-mail, surge mais um “mundo” com demandas próprias de atenção. Experimente ficar dois meses sem responder aos seus e-mails, recados em redes sociais, comentários de blogs ou mensagens de texto. Isso irá irritar profundamente seu universo de contatos. Muitos vão pensar: “Será que estou sendo ignorado?”. Outros vão dizer: “Será que minha mensagem não é importante o suficiente para receber uma resposta?”. Mas provavelmente ninguém vai pensar algo como “não recebi uma resposta porque é humanamente impossível responder a todas as demandas que recebemos virtualmente, então entendo perfeitamente”.

E, para complicar o paradoxo, é bom lembrar que responder aos e-mails gera mais e-mails. Responder a scraps gera mais scraps. Responder a comentários gera mais comentários. Logo, um dos desafios a serem enfrentados no século 21 será como resgatar a dimensão humana para as comunicações digitais. Hoje as demandas são potencialmente ilimitadas, mas nossa capacidade de atendê-las continua a ser meramente. humana. Talvez o primeiro passo para isso seja mesmo a desconexão, sem culpa.

*Ronaldo Lemos, 33, é diretor do Centro de Tecnologia da FGV-RJ e fundador do site www.overmundo.com.br. Seu e-mail é rlemos@trip.com.br

Comentário

Às vezes, confesso, é preciso reconhecer que do que mais preciso num dia é desconectar-me de tudo(entende-se web) e sair pela rua e dar um passeio.A enorme gama de compromissos que me vêm à cabeça logo quando ligo meu computador me faz pensar, em certos dias, é claro, em refletir duas vezes antes de logar.Não sei se essa será uma tendência dos próximos anos, mas sei que a desconecção servirá para alguns casos como analgésico contra as várias doenças que surgiram derivadas da enorme exposição ao mundo virtual e sua respectiva assimilação com o real; este último, como bem sabemos, bem menos fantasioso que o primeiro.

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