Agência Estado

Publicação: 03/11/2010 19:28 Atualização:

Com base em críticas encaminhadas ao governo, o ministro da Educação, Fernando Haddad, decidiu não acatar o polêmico parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) que recomendava excluir “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, na lista de livros distribuídos à rede escolar. Divulgado na semana passada, o parecer apontou preconceito racial contra negros na obra, que conta a história da caçada de uma onça por Pedrinho e personagens do Sítio do Picapau Amarelo. Mas, por decisão de Haddad, o parecer terá de ser revisto.

No máximo, haverá uma recomendação para que a editora do livro incluam uma explicação do conteúdo racista do livro, publicado pela primeira vez em 1933, sobretudo quando trata de Tia Nastácia, empregada doméstica negra da história, e de animais como urubu e macaco.

“Recebi muitas manifestações para afastar qualquer hipótese, ainda que por razões justificadas, de censura ou veto a uma obra sobretudo no caso de Monteiro Lobato”, disse o ministro. “Eu relativizaria o juízo que foi feito”, continuou Haddad, sobre o parecer do CNE. “Pessoalmente, não vejo racismo”.

A legislação prevê que obras distribuídas à rede escolar tenham o conteúdo analisado e possam eventualmente ser excluídas da lista por referências homofóbicas ou racistas. A legislação também prevê a possibilidade de recurso caso uma obra venha a ser vetada. “Certamente, há casos em que livros devem ser afastados, mas não no caso de um clássico como ‘Caçadas de Pedrinho'”, disse Haddad.

Rodapé

O ministro afirmou que vai respeitar o prazo de 30 dias para o recurso, contados a partir da divulgação do parecer do CNE, mas antecipou sua decisão de não homologar o parecer pela “quantidade incomum” de manifestações de especialistas que, segundo ele, não veem prejuízo à adoção do livro nas escolas.

“O conselho pode até recomendar que as editoras se preocupem em contextualizar referências racistas, sem mutilar a obra, uma nota explicativa não faz mal nenhum, puxar uma nota de rodapé e explicar”, observou. A polêmica começou com uma denúncia à Secretaria de Políticas de Promoção e Igualdade Racial, encaminhada ao CNE. Em votação unânime, o conselho deu parecer contra o uso da obra.

“A obra ‘Caçadas de Pedrinho’ só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil”, diz o parecer, em meio a referências elogiosas ao escritor Monteiro Lobato. “Há que se pensar em histórias que valorizem os diversos segmentos populacionais que formam a sociedade brasileira, dentre eles, o negro.”.

Comentário

O debate sobre a discriminação e o preconceito no Brasil atinge, às vezes, um certo grau de fundamentalismo e acaba – ao ser tratado por certos setores da sociedade e até mesmo pela imprensa como “coisa menor” – não conseguindo atingir os objetivos propostos.

Modifico o comentário feito aqui anteriormente, quando na ocasião critiquei o CNE (Conselho Nacional de Educação) contra a suposta censura feita a obra de Monteiro Lobato, baseando-me puro e simplesmente em informações distorcidas pela grande mídia.

Ao ler o parecer, compreendi que o que se pede – diferentemente do que os jornais noticiam – é que haja uma nota explicativa – assim como há uma nota que ressalta que a caça a onça pintada nos dias atuais, diferentemente da época, é proibida por lei – que ressalte também que existem análises críticas sobre questões etnico-raciais tratadas nas obras de Monteiro Lobato.Pede-se também, e isto não é imposto, que os professores utilizem-se de visão crítica ao trabalhar a referida obra dentro de sala de aula, argumentando sempre sobre o debate etnico-racial atualizado e condizente com a nova sociedade brasileira.

Segundo informações collhidas em listas de discussões sobre o tema, o CNE enviou nota explicativa aos principais jornais da imprensa, entre eles a Folha de São Paulo, porém os jornais se recusaram a publicá-la.

Enfim, mais uma vez parece que temas como as questões étnico-raciais e tantos outros tendem a permanecerem embaralhados e distorcidos devido à manipulação de informações, esvaziando-se, assim, o debate tão necessário

Como confiar em uma imprensa que sequer ouve o outro lado, que é nocauteado sem direto de resposta?

Mais do que vergonha, sinto-me enganado e fico com a certeza de que nunca antes o discernimento e a visão crítica foram tão necessários em se tratando da dita “sociedade da informação”.

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