Panorama da Biblioteconomia brasileira

Panorama crítico da Biblioteconomia brasileira

Edson Nery da Fonseca
Conhecido pela violência com que tenho atacado os falsos valores da Biblioteconomia brasileira; acusado de traidor da classe, por criticar a ignorância de muitos bibliotecários; apontado como derrotista, por tentar impedir que novos serviços públicos sejam criados em vez de reformar e pôr em funcionamento os antigos – foi com surpresa que recebi o convite graças ao qual aqui me encontro como Paraninfo de novos bibliotecários.

Por isso, embora sensível a tão honroso convite, pensei muito em recusá-lo. Acabei aceitando-o porque me convenci de que, se as concluintes da Escola de Biblioteconomia de Minas Gerais escolheram para paraninfar sua festa de formatura, não um profissional acomodado e satisfeito que aqui viesse para entoar louvores à situação brasileira, em matéria de bibliotecas, mas um crítico por vezes feroz dessa situação, é que desejaram retirar deste ato o aspecto convencional das solenidades acadêmicas, dando-lhe um sentido de luta contra os erros da nossa organização bibliotecãria.

Essa disposição de luta vai muito bem com o espírito das novas gerações brasileiras, caracterizado pelo inconformismo e pelo anseio de reformas. Reforma agrária, reforma bancária, reforma tributária, reforma eleitoral, reforma constitucional, reforma universitária. Por que não uma reforma bibliotecária?

O vosso convite, se bem o interpreto, impõe-me o dever de discutir convosco alguns aspectos dessa desejável reforma. Não sei de missão mais nobre, para uma nova geração de bibliotecários, do que esta de repensar os valores estabelecidos, de lutar contra a obsolescência, de retificar os erros cometidos pelas gerações anteriores.

Para muitos, a Biblioteconomia brasileira vai muito bem. São os bovaristas, vivendo pela imaginação, como a personagem de Flaubert, situações inexistentes; são os basbaques: pessoas boquiabertas diante de tudo; são vítimas da detestãvel doença do “ufanismo” provocada pelo Conde de Afonso Celso com seu livro Porque me Ufano do meu País. Essas pessoas, para as quais tudo vai bem, me lembram a história da marquesa. Longe de casa, resolve telefonar ao mordomo para saber se tudo estava em ordem, “Tudo está em ordem, Madame”, mas, adiantava o mordomo, “os cavalos morreram queimados”. “Morreram queimados? Mas como?” “Porque o incêndio destruiu as cavalariças. Mas tudo vai bem”. “Mas que incêndio?” “O que da mansão propagou-se por toda a propriedade. Mas tudo vai bem”. “Mas a mansão incendiou-se?” “Pois sim, com o cigarro que o marquês deixou acesso sobre sua cama. Mas tudo vai bem”. “E o marquês, Deus do céu, está passando bem?” “O marquês morreu no incêndio, mas tudo vai bem, senhora marquesa.”

Parafraseamos a historieta e perguntamos: a Biblioteconomia brasileira vai bem? Vai muito bem, dirão os bovaristas e os basbaques. Só que a Biblioteca Nacional – isto é, a mais importante biblioteca de uma nação e, no caso da nossa, graças às coleções trazidas por D. João VI, a mais rica da América Latina – está instalada num edifício quase em ruínas, que não comporta mais o seu acervo: fora disso tudo vai bem, porque o Governo construirá outra Biblioteca Nacional em Brasília.

E a propósito de Brasília, qual a situação das bibliotecas na famosa e bela Capital, cuja construção, em 5 anos, foi considerada como “o acontecimento do século”? Ah, em Brasflia tudo vai bem. Só que as bibliotecas dos Ministérios e autarquias estão se transferindo sem nenhum plano, com as coleções lamentavelmente duplicadas, mas, fora disso, tudo vai bem. E o Congresso? Que fez o Congresso quando viu as bibliotecas da Câmara e do Senado transferidas para a sua nova e bela sede? Reuniu-se, certamente, criando a Library of Congress brasileira? Oh, no Congresso tudo vai bem, só que as bibliotecas continuam separadas, como se as duas Casas continuassem no Monroe e no Tiradentes, comprando as mesmas revistas e, o que é pior, classificando, catalogando e indexando tudo isso separadamente. Diga-se de passagem que a duplicação não é só de bibliotecas: há dois serviços médicos, dois arquivos, duas diretorias de pessoal, duas diretorias de material e até duas áreas de estacionamento de automóveis, sendo rigorosamente proibido o estacionamento de automóveis de funcionários da Câmara na área do Senado. Os Senadores transformaram em salinhas catitas os amplos salões projetados por Oscar Niemeyer, e até já quiseram dividir em dois o corredor que liga o edifício principal aos anexos. Mas isso já é outra história. Voltemos a caso geral de Brasília.

Que tal o Plano Piloto? Ah, uma beleza, tudo vai bem. O genial Lúcio Costa tudo previu. Há supermercados, hospitais, igrejas, colégios, quartéis. Há até um ambiente de meia-luz, nas superquadras, para favorecer os namoros. Nem as bancas de revista e jornal foram esquecidas. Mas o genial Lúcio Costa confessou-me que esqueceu por completo as bibliotecas. Esqueceu as bibliotecas? Sim, mas tudo vai bem, porque D. Lydia de Queiroz Sambaquy já projetou, como foi dito antes, a Biblioteca Nacional de Brasília. De acordo com projeto em tramitação no Congresso, esta Biblioteca; fazendo ouvidos de mercador à divisão do trabalho e à especialização, inevitáveis numa época de produção bibliográfica vertiginosa, terá coleções sobre todos os assuntos e atenderá a lodos os tipos de leitores: cientistas, estudantes, trabalhadores, crianças e até aos deficientes da visão. Vai ser um “show” de Biblioteca Nacional. Tudo vai bem. Mas, como boa repartição pública, ficará ela fechada a partir de 8 horas da noite e aos sábados, domingos, feriados e dias de “ponto facultativo”. De modo que a população de Brasília, não tendo para onde ir, nessas ocasiões, continuará enchendo os bares, as boates, os bilhares e os “inferninhos” onde já não faltam os fumadores de maconha e aspiradores de cocaína. Mas tudo vai bem. Quando eu disse a Lúcio Costa que a falta de bibliotecas nas superquadras fazia com que os jovens de Brasma enchessem os botequins que se multiplicavam em proporção assustadora, um dos seus assistentes sentenciou, do alto de sua sabedoria, que a multiplicação de botequins é explicada pelos economistas como fenômeno inflacionário. E o assunto “bibliotecas” foi encerrado.

E a Bibliografia brasileira, como vai? Vai muito bem. Só que o registro do que se publica no Pais é feito, ao mesmo tempo, pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro – em seu Boletim Bibliográfico – pelo Sindicato dos Editores – em seu Boletim Bibliográfico Brasileiro – e pelo Instituto Nacional do Livro, em duas bibliografias diferentes: a Bibliografia Brasileira e a “Bibliografia Brasileira Corrente”, na Revista do Livro. Quem deseja saber o que se publica no Brasil dispõe, assim, de 4 instrumentos bibliográficos. Mas se quisermos saber qual o último relatório de uma repartição pública ou de uma autarquia, ficaremos, por assim dizer, “num mato sem cachorro”, porque não há nenhum registro sistemático das publicações oficiais. Ainda recentemente, escrevia-me James Childes, diretor da Seção de Publicações Oficiais da Library of Congress, perguntando o que fazer para manter-se informado a respeito das publicações oficiais do Brasil. E eu tive de responder: por enquanto, nada, meu caro Childs. Esperemos dias melhores.

Deixemos, agora, a organização geral da Biblioteconomia e da Bibliografia brasileiras e voltemos os olhos para os processos. Afinal, a sala de visitas pode estar desarrumada, mas a cozinha funciona. Vejamos, então, como vai a cozinha biblioteconômica brasileira. Como os livros são tombados, classificados e catalogados? Tudo muito bem, dirão novamente os bovaristas e os basbaques. Só que, na época das fichas perfuradas e dos computadores eletrônicos, o tombamento é feito, em quase todas as bibliotecas do Pais, por meio de escrituração manual, em livros de formato in-folio, tudo como no tempo dos amanuenses sentados em altos bancos e curvados sobre mesas de tampo inclinado. Fora disso, tudo vai bem. E a Classificação? Ah, neste particular, tudo vai bem, realmente, muito bem. Só que a maior parte das bibliotecas usa um sistema de classificação – o decimal de Melvil Dewey – que desde o aparecimento, no começo do século, da Classificação Decimal Universal, conhecida como de Bruxelas, tornou-se um arcaísmo desprezível.

Bem, pode ser que os livros sejam tombados e classificados de modo obroleto, mas cataloga-se muito bem, no Brasil. A primeira geração de bibliotecános formados nos Estados Unidos trouxe de lá, para as nossas bibliotecas, um tipo de catálogo – o catálogo-dicionário – que os próprios norte-americanos – tão saudavelmente dispostos à experimentação e à renovação – já substitulram pelo que chamam de “catálogo dividido”. Pois os bibliotecários “daspianos” – cujo apego a rotinas só pode ser explicado pela preguiça mental – insistem na manutenção do catálogo-dicionário e chegam ao despautério de substituir por ele os bons catálogos sistemáticos das bibliotecas mais antigas. Foi o que aconteceu na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Foi o que se tentou fazer, na Biblioteca da Câmara dos Deputados, o mesmo grupo de bibliotecários “daspianos” que ali andou por volta de 1946, graças a Deus sem nenhum sucesso.

Mas alguém poderá dizer-me que estou investigando os processos pelas suas formas, sem verificá-los substancialmente. Pode ser que as formas sejam obsoletas, mas, dentro dessa obsolescência, os processos estejam sendo bem aplicados. Admitamos a hipótese. Dentro das limitações do sistema, os livros estão bem classificados. Classifica-se muito bem, no Brasil. Só que o livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, foi classificado em Botânica; o romance São Bemardo, de Graciliano Ramos, foi classificado como vida de santo; o Gog, de Papini, foi classificado como vida de Van Gogh; a Correspondência de Fradique Mendes, foi classificada como se o personagem de Eça de Queiroz houvesse, realmente, existido. Fora disso, tudo vai bem…

Os catálogos, por exemplo. Vi, recentemente, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro obras de José Bonifácio, o Moço, catalogadas pelo nome de José Bonifácio, o Patriarca da Independência. Mas as fichas estavam perfeitas, do ponto de vista da técnica catalográfica. Nem faltavam os três pontinhos e o número de folhas não numeradas! Tudo, portanto, vai muito bem. Abre-se a segunda edição brasileira das Normas para Catalogação de Impressos, da Biblioteca Vaticana, e vê-se, em nota do tradutor, como catalogar as diversas Constituições Brasileiras. E lá vem, nessa nota infeliz, a informação, não consignada pelos constitucionalistas patrícios, de que houve uma Constituição brasileira em 1924. Telefonei para a Biblioteca do D.A.S.P., em Brasllia, e perguntei se havia alguma edição da Política, de Aristóteles. “Só o senhor dizendo o sobrenome do autor”, respondeu a bibliotecária, “porque no nosso catálogo os autores aparecem pelos sobrenomes”. Creio que basta. Os bovaristas, os ufanistas e os românticos continuam a dizer que tudo vai bem. Mas não é tanto assim, como acabamos de ver.

Tudo isso é o resultado de uma formação profissional defeituosa, caracterizada pela hipertrofia da técnica, com prejuízo da filosofia biblioteconômica, da cultura que é ingrediente indispensável no treinamento de bibliotecários. Ensina-se um know-how deficiente e capenga, porque desligado do contexto natural da Biblioteconomia, que é a cultura. Ensina-se “como fazer”, sem explicar “porque” e “para que” fazer, de tudo resultando bibliotecários que fazem fichas como o pobre do Carlitos manipulava as chaves de parafuso: criando automatismos puramente animais.

Conversando recentemente, em São Paulo, com Rubens Borba de Moraes, disse-me esse eminente pesquisador e bibliotecário brasileiro que, quando se começou a formar bibliotecários naquela cidade, em 1930, pensou-se em atender primeiro à necessidade imediata que era de classificadores e catalogadores. Em fase posterior, seriam formados bibliotecários de alto nível para as tarefas de planejamento e direção de bibliotecas. Mas o fato é que a segunda fase nunca foi tentada, continuando os cursos de Biblioteconomia a formar o que ele chama de “operários de bibliotecas”.

A situação assume proporções de caricatura, quando vemos essas centenas de “operários” adquirir consciência profissional, fundando associações, pleiteando a direção de bibliotecas e serviços de documentação e até arrancando do Congresso Nacional uma lei completamente divorciada da realidade brasileira. Uma realidade que foi muito bem caracterizada pelo sociólogo Roger Bastide como de “contrastes”, onde a coexistência de áreas super e subdesenvolvidas exigiria uma legislação diferenciada. O resultado ai está: a Biblioteca do Estado da Paraíba sem diretor há mais de um ano, porque, de acordo com a lei, o diretor deve ser bibliotecário e não há bibliotecários naquele Estado, nem o seu Governo dispõe de recursos para importá-Ios.

Como a consciência profissional nem sempre coexiste com a consciência das próprias limitações, os bibliotecários de formação “daspiana” assumiram uma atitude ridícula em face da Documentação. Em toda a parte – na Europa, nos Estados Unidos, na Índia, na União Soviética – foi reconhecido o fracasso das bibliotecas na solução do mais difícil problema que se coloca perante o pesquisador moderno, que é o da dificuldade de tomar conhecimento de tudo o que se publica no campo de sua especialização. Por isso escreveu Suzanne Briet que “la Science trouve son Waterloo dans les bibliothéques”.

Para eliminar ou, pelo menos, diminuir essa dificuldade, surgiram os centros de documentação, com um novo tipo de técnico, o documentalista. Pois bem: em vez de colaborar com os novos serviços, os bibliotecários passaram a hostilizá-Ios e até a negá-Ios – como aquele homem da anedota negava a existência de zebras, mesmo depois de vê-Ias – afirmando que Documentação e Biblioteconomia são a mesma coisa.

Salvo melhor juízo, é esta, em síntese talvez dramática, mas real, a situação da Biblioteconomia brasileira. Não nego os aspectos positivos dessa situação, pois, graças a Deus, a volúpia com que denuncio erros e ataco os falsos valores não prejudica – desculpem a nota pessoal – minha capacidade de admirar ilimitadamente os que são realmente grandes e o que merece admiração.

Admiro sem limites, por exemplo, as figuras de Ramiz Galvão e Manoel Cícero Peregrino da Silva, os dois maiores diretores da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Admiro, entre os vivos, um Rubens Borba de Moraes, uma Sully Brodbeck, uma Etelvina Lima, uma Bernadette Neves, um Manoel Adolpho Wanderley, um Orlando Ferreira, um Abner Vicentini, uma Elvira Strang. Louvo o trabalho profícuo do Serviço de Bibliografia e do Catálogo Coletivo do 1.8.B.D. Enalteço a obra de Cordélia Robalinho Cavalcanti no Serviço Central das Bibliotecas da Universidade do Recife. Sou um admirador do esforço honesto que se faz na Escola de Biblioteconomia de Minas Gerais – esforço honesto que contrasta com a impostura do ensino superior no Brasil.

Mas não temos o direito de enganar os jovens – nós que já atingimos “o meio do caminho de nossa vida” a que se referia o poeta – como o mordomo enganava a marquesa, dizendo-lhe “tudo vai bem”. Não, nem tudo vai bem na Biblioteconomia brasileira, minhas caras concluintes. E se vos falo assim, não é com a intenção de desanimar-vos, pois sei muito bem que os jovens não desanimam facilmente. O mundo de amanhã não será construido pelos conformistas e pelos otimistas, mas pelos que, tendo consciência dos erros do passado e do presente, procuram superá-Ios. Nessa luta é que eu gostaria de ver-vos engajadas. Já o padre celebrante da missa desta manhã lembrou-vos que a missão dos jovens não é conservar velhas estruturas, mas renová-Ias. Essa luta exige coragem – moral de ser minoria, de ficar só contra todos, coragem louvada em livro profético por um estadista diante de cuja memória me inclino e cujo nome pronuncio com emoção: John Fitzgerald Kennedy.

Os burocratas, os preguiçosos, os conformistas, os medíocres, os que vêem tudo cor de rosa – podem chamar-nos de tudo, inclusive de loucos. Não responderemos, porque a resposta já foi dada pelo poeta Fernando Pessoa:

“Louco, sim, louco por
que quiz grandeza
Qual a sorte não dá”.

Fonte: Extralibris

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